
Conforme a decisão do Poder Judiciário que manteve a prisão de Kátia, ela "desempenhava papel relevante na engrenagem da organização criminosa". Além de Kátia, o MPCE denunciou outras 18 pessoas que supostamente integram o CV e estão envolvidas nos fatos que levaram ao repasse de bilhetes entre o sistema penitenciário e lideranças criminosas de fora.
"Há indicativo de que a suplicante supostamente seria integrante da organização criminosa Comando Vermelho (CV), facção esta grande poderio bélico e responsável por cometimento de crimes bárbaros, como decapitações, esquartejamentos etc. O CV é reconhecida por sua atuação agressiva, controlando territórios e impondo sua presença pelo medo e coação aos que vivem ao seu redor", disse a Vara de Delitos de Organizações Criminosas.
A decisão judicial ainda destaca que a manutenção da prisão preventiva da mulher é necessária para garantir a ordem pública e interromper o fluxo de comunicação da facção criminosa, e indica que o crime de organização criminosa é "permanente".
Em nota, a defesa técnica da ré, afirmou que a manutenção da prisão preventiva é "desproporcional e carente de fundamentação legal". A advogada Edirlândia Magalhães destacou que Kátia é uma mulher idosa, ré primária e sem antecedentes criminais.
"Se permitíssemos que a sua liberdade só seja concedida ao final da longa instrução, estaríamos cometendo outra injustiça, e isso seria uma 'antecipação de pena', combatida por várias jurisprudências atuais", afirmou.
O esquema de repasse de bilhetes com ordens para o crime foi desvendado após uma tentativa de homicídio contra um homem suspeito de roubo no Cidade Jardim 2, em março de 2024. Integrantes do CV teriam capturado e espancado a pessoa suspeita.
Um dos supostos infratores era Miguel Cleones, que foi preso e teve celulares apreendidos. A conexão com Kátia foi feita a partir da extração de dados do aparelho telefônico do chefe criminoso.
Em uma mensagem do dia 26 de abril de 2024, Kátia mandou para 'MG' a foto de um bilhete que pedia envio de cocaína e skunk, um tipo de maconha, na "próxima visita". Um áudio da mulher explicava que a nota veio de seu filho, Michel Rabelo dos Santos, o 'Morfeu', que está recolhido no sistema penitenciário.
No manuscrito, a pessoa pede que a informação chegue até Gabriel Marques de Souza, o 'Biel do CJ' para que ele entregue 50 gramas de cocaína e skunk para Késsia Freitas Batistas, uma das denunciadas pelo MPCE.
No celular de 'MG', haviam ainda fotos de armas, munições e imagens explícitas de referências ao Comando Vermelho, o que corroborou a suspeita do crime de organização criminosa denunciado pelo MP cearense.
Os bilhetes que comunicavam os membros de facção presos com os em liberdade eram chamados de "catatau", e Kátia não foi a única a participar do esquema de transmissão de informações.
Um homem identificado como Antônio Geanderson Lima da Silva, o 'Lorim', era responsável por receber os manuscritos e enviar fotos deles via WhatsApp. Ele recebia geralmente os bilhetes da Unidade Prisional Agente Luciano Andrade Lima (UP-Itaitinga1) e os encaminhava para MG e outro chefe do CV, Adriano Almeida Lima, o 'Terror' ou 'Adrianinho', que também se encontra preso atualmente.
Leandro da Silva Soares, o 'Estrategista' e Emanoel Braz Araújo, o 'Pezão', embora presos, foram apontados como as pessoas responsáveis pela escrita dos recados. Eles utilizavam linguagem em códigos para organizar a logística do crime.
O termo "corre", que significa a entrega da droga, e "QBD", que é a quebrada, ou local de atuação, eram alguns dos termos mascarados.
Essa rede criminosa garantia que os integrantes da facção, mesmo presos, mantivessem funções operacionais junto às lideranças da organização em liberdade. 'Lorim', 'Estrategista' e 'Peão', também estão na lista de denunciados do MP do Ceará.