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Cultura/Entretenimento

Chuva de Bosta

11/09/2007.

Publicada em 27/01/26 às 22:20h - 97 visualizações

Zé Irlando


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Chuva de Bosta
 (Foto: Fotomontagem/Fábio Souza Tavares)
Eu sou um bom carpinteiro 
Monto fôrma, faço andaime 
Fazendo laje no prédio 
Do doutor Orlando Jaime 
Só vivo dependurado 
Trabalhando nas altura
Serrote, prego e inchol 
Lutando de sol a sol 
Sem descanso nem fartura 

Acordo de madrugada 
Maria faz meu café 
Misturo no pão de milho 
E arrocho na colher 
Meu prato é uma bacia 
E eu como com alegria 
Prumode criar sustança 
Mais ôto dia o estambo 
Deu mais tiro do que Rambo 
Brigando numa vingança 

Acordei fora de hora 
E já saí avexado 
Engoli meu pão de milho 
Pá não chegar atrasado 
Peguei minha bicicleta 
E dei uma de atleta 
No rumo do meu serviço 
A barriga foi ruendo 
Minhas tripas remuendo 
No maior dos rebuliço

De noite eu tinha jantado 
Língua de boi com polenta 
Pirão de carne de gado 
Carregado na pimenta 
Comi linguiça no molho 
Insopado de repolho 
De sobremesa cocada 
E na hora de dormir 
Um doce de buriti 
Com um prato de coalhada 

Lá na firma nove horas 
Aparece um merendeiro 
Eu que sou um bom cliente 
Sou atendido primeiro 
Bebi três caldo de cana 
Comi catorze banana 
E seis pastel de sardinha 
Dois café e um pão francês 
Um bolachão santa Inês 
E fechei com uma aguinha 

Meu bucho tava mei duro 
Mas eu tô acostumado 
Pensei depois amiora 
Com um sukinho gelado 
Voltei a subir na obra 
Enrolado feito cobra 
Trabalhando de martelo 
Meu colega Zé crispim 
Ficou olhando pra mim 
E viu que eu tava amarelo 

Foi subindo um suor frio 
Uma gastura do cão 
Eu senti um arrepio 
Que nem a febre cezão 
Meu bucho deu uma rodada 
E minha cara suada 
Ficou da côr de bunina 
Eu soltei uns oito traque 
E só escutei o baque 
Do tolete na butina 

Mas o volume era grande 
Encheu a bota ligeiro 
E o Dr Alexandre 
Que é o nosso engenheiro 
Tava lá em baixo de costa 
Levou uma chuva de bosta 
Merda quente fresca e mole 
E eu em cima espremendo 
E a bostaria descendo 
Na cantiga do meu fole 

Tinha tom de todo jeito 
Agudo e muito comprido 
Era tiro de vapor 
Istralado e dolorido 
Impestou o prédio inteiro 
E o pobre do engenheiro 
De baixo da bostação 
E quando ele olhou pra riba 
Viu um bolo de lombriga 
Coroando a merdação 

No balançado da corda 
A mira mudou de rumo 
E pra dentro da caçamba 
Descia o rolo de fumo 
Muito ligeiro lotou
E o mestre operador 
Empurrou a betoneira 
E foi fazendo mistura 
Bosta clara e merda escura 
Na chuva de caganeira 

Seu moço eu só não caí
Porque estava amarrado 
E a corda arrochando o bucho 
Ajudava o despejado 
As tripas desse cristão 
Mais parecia um vulcão 
Despejando merda pronta 
Foi meia hora de chuva 
Tolete fazendo curva 
De deixar a vista tonta 

Quando se acabou os traques 
E desceu a merda fina 
As calças também caíram 
Junto com minha botina 
Enganxouse num arame 
E aquela visão infame 
Alí pelo quarto andar 
Ficou só se balançando 
E a merda se espalhando 
Bosta pra lá e pra cá 

Foi uma chuva de bosta 
Numa agonia sem fim 
Eu in riba me cagando 
E os ôto rindo de mim 
Me lavaram de mangueira 
Desgraçou a obra inteira 
Ficou três dias parada 
Condenaram uma parede 
Eu passei um mês de rede 
Por causa de uma cagada 

Hoje em dia tô parado 
Me tiraram do serviço 
A mulher vive falando 
Que me jogaram feitiço 
Os amigos me pirraça 
Nunca mais andei na praça 
Não saio nem no portão 
Até quando eu vou na missa 
A molecada me atiça 
Gritando Chico cagão!



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