Eu sou um bom carpinteiro
Monto fôrma, faço andaime
Fazendo laje no prédio
Do doutor Orlando Jaime
Só vivo dependurado
Trabalhando nas altura
Serrote, prego e inchol
Lutando de sol a sol
Sem descanso nem fartura
Acordo de madrugada
Maria faz meu café
Misturo no pão de milho
E arrocho na colher
Meu prato é uma bacia
E eu como com alegria
Prumode criar sustança
Mais ôto dia o estambo
Deu mais tiro do que Rambo
Brigando numa vingança
Acordei fora de hora
E já saí avexado
Engoli meu pão de milho
Pá não chegar atrasado
Peguei minha bicicleta
E dei uma de atleta
No rumo do meu serviço
A barriga foi ruendo
Minhas tripas remuendo
No maior dos rebuliço
De noite eu tinha jantado
Língua de boi com polenta
Pirão de carne de gado
Carregado na pimenta
Comi linguiça no molho
Insopado de repolho
De sobremesa cocada
E na hora de dormir
Um doce de buriti
Com um prato de coalhada
Lá na firma nove horas
Aparece um merendeiro
Eu que sou um bom cliente
Sou atendido primeiro
Bebi três caldo de cana
Comi catorze banana
E seis pastel de sardinha
Dois café e um pão francês
Um bolachão santa Inês
E fechei com uma aguinha
Meu bucho tava mei duro
Mas eu tô acostumado
Pensei depois amiora
Com um sukinho gelado
Voltei a subir na obra
Enrolado feito cobra
Trabalhando de martelo
Meu colega Zé crispim
Ficou olhando pra mim
E viu que eu tava amarelo
Foi subindo um suor frio
Uma gastura do cão
Eu senti um arrepio
Que nem a febre cezão
Meu bucho deu uma rodada
E minha cara suada
Ficou da côr de bunina
Eu soltei uns oito traque
E só escutei o baque
Do tolete na butina
Mas o volume era grande
Encheu a bota ligeiro
E o Dr Alexandre
Que é o nosso engenheiro
Tava lá em baixo de costa
Levou uma chuva de bosta
Merda quente fresca e mole
E eu em cima espremendo
E a bostaria descendo
Na cantiga do meu fole
Tinha tom de todo jeito
Agudo e muito comprido
Era tiro de vapor
Istralado e dolorido
Impestou o prédio inteiro
E o pobre do engenheiro
De baixo da bostação
E quando ele olhou pra riba
Viu um bolo de lombriga
Coroando a merdação
No balançado da corda
A mira mudou de rumo
E pra dentro da caçamba
Descia o rolo de fumo
Muito ligeiro lotou
E o mestre operador
Empurrou a betoneira
E foi fazendo mistura
Bosta clara e merda escura
Na chuva de caganeira
Seu moço eu só não caí
Porque estava amarrado
E a corda arrochando o bucho
Ajudava o despejado
As tripas desse cristão
Mais parecia um vulcão
Despejando merda pronta
Foi meia hora de chuva
Tolete fazendo curva
De deixar a vista tonta
Quando se acabou os traques
E desceu a merda fina
As calças também caíram
Junto com minha botina
Enganxouse num arame
E aquela visão infame
Alí pelo quarto andar
Ficou só se balançando
E a merda se espalhando
Bosta pra lá e pra cá
Foi uma chuva de bosta
Numa agonia sem fim
Eu in riba me cagando
E os ôto rindo de mim
Me lavaram de mangueira
Desgraçou a obra inteira
Ficou três dias parada
Condenaram uma parede
Eu passei um mês de rede
Por causa de uma cagada
Hoje em dia tô parado
Me tiraram do serviço
A mulher vive falando
Que me jogaram feitiço
Os amigos me pirraça
Nunca mais andei na praça
Não saio nem no portão
Até quando eu vou na missa
A molecada me atiça
Gritando Chico cagão!